22 de nov de 2012

Rapunzel (Original _ Irmãos Grimm)

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Era uma vez um casal que, tendo desejado, em vão, um filho durante anos, acabou por descobrir, com alegria, que a mulher estava grávida.

A casa onde morava tinha, nas traseiras, uma janela de onde se avistava um terreno cheio de flores e de magníficas plantas. No entanto ninguém se atrevia a lá entrar, não só porque o rodeava um muro muito alto, como porque pertenc

ia a uma poderosa e temida feiticeira.

Certo dia em que a mulher, à janela, olhava para lá, caíram-lhe os olhos num canteiro em que floresciam os mais belos rapôncios. Eram tão verdes e frescos que lhe fizeram crescer água na boca. Ora, sabendo que não os podia comer, cada dia tinha mais desejos. Emagreceu muito e ficou com um ar pálido e doente. O marido assustou-se:


― O que tens, querida mulher?

― Ai! – suspirou ela tristemente. – Se não como aqueles rapôncios, morro!

O marido, que a amava muito, pensou: “Mais vale eu ir colhê-los, senão ela ainda morre!”

Assim que escureceu, trepou o muro, entrou no jardim da bruxa, colheu a toda a pressa uma mão-cheia de rapôncios e trouxe-os à mulher. Esta com eles preparou uma salada que comeu com prazer. Mas soube-lhe tão bem, tão bem que, no dia seguinte, os desejos tinham triplicado. Por isso o homem teve de lá voltar. Ao escurecer, trepou o muro, mas, mal entrou no jardim, surgiu-lhe uma bruxa muito feia que, com um olhar terrível, lhe perguntou:

― Como te atreves a entrar aqui para me roubar como um ladrão? Vou castigar-te!

― Tem pena de mim! Só fiz isto porque a minha mulher, que está grávida, morria se não comesse os teus rapôncios, que viu da janela!

Ao ouvi-lo, a fúria da bruxa desapareceu.

― Bem, se é o caso, deixo-te levar todos os que quiseres, com uma condição: logo que a tua mulher tenha a criança deverás dar-ma imediatamente. De resto, não te preocupes que eu serei uma mãe para ela.

Cheio de medo, o homem concordou com tudo. E, mal a mulher teve a criança, a bruxa apareceu deu à menina o nome de Rapunzel, que é o mesmo que Rapôncio, e levou-a consigo.

Quando fez dezesseis anos, Rapunzel era a menina mais linda do mundo e a bruxa fechou-a numa torre sem escada nem porta, no meio de uma grande floresta. Só havia uma janela e, quando a velha queria entrar, chamava:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

A menina tinha os cabelos muito compridos e tão louros que pareciam feitos de ouro. Quando ouvia a voz da bruxa, prendia a trança num gancho da janela e deixava os cabelos caírem até ao chão para ela poder subir.

Passaram alguns anos. Certo dia o filho do rei, que cavalgava por ali, ouviu um melodioso canto. Prestando mais atenção notou que a voz saía de uma alta torre, mas ao procurar entrar, descobriu que não havia escada nem porta. Acabou por regressar ao palácio e, todos os dias, vinha ouvir aquele doce cantar. Até que, um dia, viu chegar uma velha e ouviu-a dizer:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Do alto da torre caiu uma trança por onde a velha subiu. “Se a escada é essa” – pensou o príncipe – “também eu subirei.”
E, no dia seguinte, quando começou a escurecer, aproximou-se da torre e chamou:
― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Os cabelos foram lançados lá de cima e o príncipe subiu. Quando o viu entrar, a menina apanhou um grande susto porque nunca tinha visto nenhum homem. Porém, o príncipe falou-lhe com grande cortesia, explicando que a voz dela se tinha insinuado no seu coração ao ponto de ele já não ter sossego e como, por isso, tinha sido forçado a procurá-la. Então Rapunzel perdeu o receio e, quando o príncipe lhe perguntou se o queria como marido, ela olhou-o com atenção. Era jovem e belo e a menina pensou: “De certeza que gosta mais de mim do que a minha madrasta!” Assim, acedeu em dar-lhe a mão, dizendo:

― De boa vontade iria contigo, mas não sei como descer. Sempre que vieres visitar-me traz-me uma meada de seda. Com ela tecerei uma escada. Quando estiver pronta, poderei descer e partir contigo no teu cavalo.

O príncipe passou a vir todas as noites porque a bruxa vinha de dia. A velha não se apercebeu de nada até que uma vez a menina observou:

― Como és pesada! Demoras muito mais a subir do que o príncipe, que chega cá acima num instante!

― Oh! Malvada! Pensei que te tinha mantido afastado de todos e afinal enganaste-me?!
Furiosa, prendeu os cabelos de Rapunzel com a mão esquerda e, com a direita, agarrou num par de tesouras: Zac! Zac! Cortou-lhe a bela trança. Foi tão má, tão má que levou a pobre da menina para um deserto onde a deixou ficar. Depois, voltou à torre e, quando o príncipe chamou:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Lançou-lhe a trança cortada. O príncipe subiu sem desconfiar de nada mas, lá em cima, só encontrou a bruxa que o olhou com os seus olhos cheios de veneno e exclamou:
― Vieste buscar a tua bela? Ah, mas a graciosa avezinha já não está no ninho! Nem sequer canta! Levou-a o gato e agora vai arranhar-te os olhos a ti. Nunca mais a verás!
Fora de si, o príncipe saltou da torre. Salvou-se, mas caiu sobre os espinhos que o cegaram. Assim vagueou, comendo só raízes e bagas e chorando a perda da sua amada esposa. Andou, andou, andou até que chegou ao deserto onde vivia Rapunzel que, entretanto, tinha tido gémeos: um menino e uma menina. O príncipe ouviu-lhe a voz e, deixando-se guiar por ela, aproximou-se. Logo sentiu uns braços à volta do pescoço: era Rapunzel, a chorar. Duas dessas lágrimas caíram nos olhos do príncipe, que brilharam de novo, voltando a ver como antes. Ele levou-a para o seu reino onde houve grandes festejos e viveram felizes durante muitos e muitos anos.

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